Quem é vivo - e muito vivo - sempre aparece. Mestre Carlos Eduardo Novaes volta a premiar os leitores do Blog do PC com um texto exclusivo e inédito. Acabei de receber. Novaes é um dos meus principais Gurus no Jornalismo.
O SILÊNCIO DO TREINADOR
Por Carlos Eduardo Novaes
''Nunca pensei que fosse sentir saudades de
Leandro Guerreiro na cabeça da área'.
Deu nas folhas que o treinador Osvaldo de Oliveira, sua comissão técnica e os jogadores do Botafogo estão se reunindo para tentar corrigir no papo o que não conseguem acertar em campo. Permitam-me dizer que não acredito neste tipo de solução. Se Osvaldo de Oliveira – no clube desde o inicio da temporada – ainda não deu um padrão de jogo ao time, não será na base da conversa que ele vai arrumar aquela defesa, dar criatividade ao meio de campo e agressividade ao ataque (ataque?). Mesmo porque nosso treinador é um homem de poucas palavras, pouquíssimas.
Observo-o durante as partidas. De mãos no bolso ou braços cruzados, Osvaldo permanece silencioso como uma esfinge. Mais parece um espectador neutro e privilegiado à beira do gramado. Lembro o último jogo com o Palmeiras. Lá pela metade do primeiro tempo os paulistas venciam por 1 a 0 e Felipão se esgoelava, gesticulava orientando seus jogadores da área técnica. Dava para ouvir sua voz através do som da TV. Do outro lado o técnico do Botafogo – que perdia – não abria a boca.
A cena se repete – e me irrita – em todas as partidas. Será que Osvaldo de Oliveira não tem nada a dizer ao time durante um jogo? Ou tem vergonha de sair do silêncio, perder a pose e berrar como fazem os grandes treinadores, Luxemburgo, Muricy, Felipão, Abel e outros? Se tivesse uma defesa como a do Botafogo eu terminaria o jogo sem voz.
É o estilo, dirão alguns, um estilo contido, reprimido que só se manifesta para reclamar da arbitragem. Mas se é para permanecer calado, não seria mais cômodo assistir o jogo das tribunas? Dá para desconfiar que Osvaldo também se mantém assim, mudo, nos treinos porque em todos esses meses à frente do Botafogo ainda não conseguiu montar um esquema para o time, como se vê no Vasco e Fluminense. O Vasco perdeu bons jogadores – Rômulo e Diego Souza entre eles – mas não perdeu seu jeito de jogar (graças ao treinador) e se mantém no topo da tabela. No Fluminense há um entra-e-sai constante mas o time permanece na mesma batida vencedora.
E o Botafogo? Há quanto tempo o amigo torcedor não vê uma exibição de encher os olhos e o coração? Apontem-me, por favor, uma única jogada ensaiada que resulte em gol. O Botafogo tem sobrevivido de bolas paradas e do esforço de Marcio Azevedo, um jogador limitado que até pouco tempo era execrado pela torcida e diante da mediocridade geral virou a estrela do time. De resto sobram as bolas cruzadas na área , um cacoete adquirido nos tempos de Loco Abreu, que o time insiste em repetir a espera que surja uma cabeça salvadora (como a de Elkeson no joguinho com a Portuguesa).
A mediocridade, é bom que se diga, não vem da qualidade dos jogadores – alguns excelentes – mas da desarrumação do time dentro de campo. Nem dez Seedorfs dariam jeito nesse Botafogo que, como não tem esquema toca demais a bola, torna-se lento nos seus avanços e quando chega ao ataque já encontra o adversário plantado, fechadinho, pronto para sair em contra-ataque. Resultado: o time não consegue chutar a gol e a correria de volta para seu campo é um Deus nos acuda, sem velocidade nem organização.
A prova mais cabal de que o time não sabe o que faz (sem esquema tático) são os chutões de Antonio Carlos e Fabio Ferreira para frente sem qualquer critério, como se não existisse um meio de campo para organizar as jogadas.O que eles pretendem com esses chutões que já caíram de moda? Mas não culpem apenas os dois que sempre expostos e sem proteção são capazes das mais enlouquecedoras pixotadas. Nunca pensei que fosse sentir saudades de Leandro Guerreiro na cabeça da área.